Catarse de sentimentos
que não desejo guardar
nas gavetas.
Minha vida é sentir
tudo até o fim.
Enquanto existir
perfume francês
e poesia eu respiro!
Foto By: Maysa Brito
e me pergunto: onde foi mesmo que a gente se perdeu?
você prometeu me amar para sempre
e nunca me esquecer
-esse letreiro passou diante dos meus olhos umas dez vezes ontem a noite -
Agora/
{ agora não; há muito você tem família, uma nova vida – e entenda, eu não estou lamentando este fato... }
[e eu...]
-você sabe que eu também tentei ter a minha, aliás, ela começou antes da sua, mas... –
será que você ainda lembra de mim?
ou será que nunca me esqueceu?
[é diferente o lembrar do não esquecer, não é?]
eu me lembro do nosso encontro casual e do meu medo de apanhar da sua namorada que não era sua namorada
-naquela festa-
lembro de ter fugido da pista de dança quando me vi dançando a sua frente e lembro também da sua “suposta” namorada conversando com a dona da festa e me apontando e do meu : – ai! socorro! vou apanhar.
[Eu estava de “maria- chiquinha”, você lembra?]
e em uma das cartas você escreveu que queria me fazer “maria-chiquinhas”, seja lá o que isso representasse naquele momento...
-cartas. milhares de cartas...-
e na sua primeira, você pede desculpas por já estar enchendo meu saco, pois escreveu ela no mesmo dia em que eu fui embora de São Luis e voltei para o Rio.
nela, na carta, e você acha que vai me irritar por já estar escrevendo, tão cedo... eu mal fui embora, né? – e lembro também da sensação, da alegria de abrir e de ler aquela carta – foi uma realização tão grande, uma alegria tão plena que eu to voltando aos 16 e lembrando de como foi quando abri aquela carta e do que eu senti no nosso primeiro beijo, do cachorrinho de pelúcia que ganhei de natal ( e guardo até hoje)
tão inesperado o nosso namoro,
nosso encontro ...
[inesperada nossa troca de cartas]
nas cartas você parece estar conversando comigo. me dá tanta satisfação...que agora é a minha vez: você sabe que eu nunca esqueci que a gente só se conheceu de verdade depois que eu tomei um porre e me enchi de coragem para enfrentar um dos meus maiores medos na época e na carta seguinte do meu porre, você diz que não conhece mais a “menina” em mim e me agradece pelo “mulher” que eu despertei em você e eu acho que foi ao contrário, sabe... foi você quem despertou “a mulher” em mim e eu não sei porquê, mas estou com vontade de te agradecer por isso.
lembro que a gente expulsou seu amigo do quarto e tenho vontade de dar risada não sei porquê, mas talvez eu esteja feliz em despertar essas lembranças... e você lembra que quando tudo isso aconteceu a gente nem estava mais namorando?
naquela época era tão fácil encarar sofrimentos, medos, dores ... será que foi a época ou será que foi o fato de estar ao seu lado que me deu forças para encarar aquele turbilhão todo; digo, tornado, furacão?
(...)
e eu me pergunto: onde foi mesmo que a gente se perdeu?
sabia que eu não me esqueço daquela vez que a gente foi numa lanchonete e a gente estava discutindo e você estava com um pouco de raiva, ou só triste, não sei – e você comeu tanto, mas tanto, mas tanto que me assustou? – sabia que toda vez que eu passo por aquele lugar eu visualizo a cena, nós dois na calçada e às vezes eu até sinto o seu cheiro...
eu tenho uma lembrança remota, porquê não falar; confusa de que eu cozinhei para você ... eu fiz macarrão? ou fiz uma torta de aniversário? Ou os dois? – eu lembro que tinha um lance de leite condensado, doce de leite, não sei... e eu lembro que você teve um trabalho para fazer e que me deixou em casa vendo VHS com um amigo seu... e quando você chegou... ah! lembro de você ter feito meus olhos brilharem!
e ontem, eu relembrei seus elogios. o quanto você elogiava minhas cartas, meu capricho em escrevê-las e do quanto xingava a sua letra feia e garranchada e a sua escrita monocromática, com apenas uma cor de caneta. naquela época, isso não me importava, aliás, hoje também não importa – sabe o que fica disso tudo?
as suas cartas empoeiradas, amarelando-se numa caixa, mas eu posso relê-las quando quiser, mesmo que espirre até o meu nariz explodir depois... eu guardo todas as suas cartas, cartões, bilhetes. você ainda tem algumas das minhas? não, não deve ter e eu entendo que não as tenha guardado. entendo mesmo!
ah! você me dava tanta satisfação que chega a ser engraçado! -“agora são 3 da manhã”, “tenho dormido pouco”, “vou te ligar amanhã ou domingo”, “não te liguei ontem porque fui para a casa do meu tio”...
morri de rir – não para debochar dos seus sentimentos, mas porque você era tão preocupado que numa das cartas leva um tempão querendo explicar a diferença entre “preocupação” e “sentir pena”.
você já podia imaginar que eu ia achar que você estava me escrevendo “por pena” e não queria ser mal interpretado. você era tão preocupado... que chega a ser engraçado isso hoje.
na época, beirava o dramático, mas não estou reclamando... estou feliz. tão leve em reler suas cartas, cartões, bilhetes...
[naquela época, não existia e-mail, nem celular]
existir? bem... existia, mas estava tudo tão engatinhando... assim como nós, dois jovens, em descoberta... engatinhado...
nós não tínhamos a menor idéia de como seria nossa vida em 2009 e na verdade eu não lembro de como eu queria que ela fosse eu 2009 e muito menos consigo me imaginar no mundo de hoje com o pensamento de ontem e se... eu ia estar feliz hoje com o meu pensamento e idealização de ontem, mas sei que hoje estou aqui em 2009 e estou feliz porque releio as suas cartas, cartões, bilhetes...
estou com o seu convite de formatura nas mãos e me pergunto: como teria sido eu ir nesse baile. teria mudado alguma coisa hoje esse acontecimento? – mas a pergunta não é essa e sim: onde foi mesmo que a gente se perdeu?
estou aqui sonolenta com você ao meu lado...
sabia que eu vou dormir com você essa noite e a gente vai tomar café amanhã de manhã e depois... cada um vai seguir seu rumo, sua vida e eu vou deixar (à contragosto) essas lembranças todas adormecerem e virarem saudade novamente, porque vai ser mais fácil assim, para mim e para você...
e agora... o meu último suspiro antes de te dar um beijo de boa noite e da gente virar para o lado e de conchinha adormecer nesse colchonete no chão do mesmo jeito que aqueles jovens adormeceram em 1996... mas hein, me fala uma coisa... sussurra no meu ouvido...
ei! antes de dormirmos, eu te pergunto: onde foi mesmo que a gente se perdeu?
3.11.09
Ganhei de presente da amiga e poeta, Sheyla de Castilho e preciso dizer que ADOREI!!!!!
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, falo demais e também me canso de mim e da minha voz estridente a estalar nos ouvidos feito bola de chiclete.
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, bebo demais e começo a fazer confissões desnecessárias. e sei também, que é preciso ficar calada, mas não consigo ficar calada porque o excesso de cerveja faz o pensamento acelerar e ele foge pelas janelas dos meus lábios muito antes que eu pense que era melhor ter deixado as coisas guardadas, dobradinhas e com cheiro de amaciante dentro das gavetas do armário da alma.
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, que seus afazeres e leituras são mais importante que meus "olás", que meus "ois"...
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, que você está absorvido pelos seus próprios pensamentos e é mais interessante estar mergulhado no seu mar do que no meu oceano gelado e cheio de tubarões.
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, que eu assusto você com meu impulso suicida de pular no abismo e pagar para ver se lá embaixo tem um colchão macio, é terra batida mesmo ou pedra.
você me ignora e eu não ligo, pois sei que às vezes, e são muitas estas vezes, a gente sorri junto e se entende e sabe do que o outro está falando.
e eu não ligo. não ligo mesmo de você me ignorar, porque eu sei que a vida é assim mesmo e eu tenho que aprender a viver com a minha incoerência, com a minha liberdade, com a minha falta de modos e com a minha mania de falar "eu te amo" a toda hora e eu sei não vai ser fácil, mas sinto que a gente poderia muito bem viver junto e feliz, para sempre, numa casinha com cercas brancas e flores no jardim e sei também que é é esse o nosso desejo mais sincero e secreto. eu sei que é tudo isso que a gente deseja, por isso, eu não ligo.
não ligo mesmo para nenhuma poça que nos tire dessa estrada escura e cheia de curvas só porque chove torrencialmente na cidade.
hoje de manhã sai de casa sem pentear os cabelos. fiz uma trança com a franja em crescimento e prendi o restante para trás num rabo de cavalo. percebi agora que o rabo de cavalo estava um tanto emaranhado e procurei por um grampo na bolsa. fiz então um coque desalinhado e ficou bonito.
não me entendam mal: não estava desgostosa da vida e nem com preguiça de procurar pela escova ( la estava na minha frente), mas eu queria mudar um pouco essa rotina de certezas que me cerca – algo assim como levantar da cama, colocar os chinelos e ir para o banheiro para o primeiro xixi do dia e depois banho e depois café da manhã e escovar os dentes e pentear os cabelos e dar tchau para a minha mãe e sair de casa.
eu não estava com nenhum pouco de vontade de pentear os cabelos e verificar os nós e as pontas duplas e os quatro dedos que preciso cortar dele. eu não estava querendo passar silicone nas pontas, creme para pentear no comprimento e nem fazer nada disso hoje, porque eu faço isso tudo todo dia e nada muda em dia nenhum e fica tudo sempre igual e a mesma coisa e igual a qualquer outro dia. é só rotina, ritual, vontade de me enganar, acreditar em campanha de marketing de que se eu usar isso meu cabelo vai ficar assim, assado, cozido... não!
escolho meus produtos de cabelo pelo cheiro, pela embalagem, pelo preço, porque é tudo sempre igual e só isso muda: cheiro, embalagem, preço e nada mais. não consigo ser meticulosa para não dizer "fresca" assim como a maioria das mulheres. eu não consigo achar diferença nenhuma nessas coisas, a não ser, lógico, quando a gente vai a um bom salão, porque nesse caso, aí... muda tudo! a textura do cabelo muda. a nossa cara muda. o jeito que as pessoas nos olham, muda. e aí... repito; muda tudo! – mas hoje, nada ia mudar e eu resolvi sair de casa assim, com as cabelos livres de escovar e essa foi a minha escolha e isso mudou tanta coisa hoje.
e mesmo sem sabe o porquê deste texto e o porquê de eu não estar conseguindo escrever nada que preste mesmo estando bem (deve ser por isso mesmo, porque eu estou bem) e sem saber quando vou voltar a ter ânimo de escrever e de falar em público e de sair de novo e de celebrar a vida eu estou bem, mesmo não sabendo do amanhã, se vou estar ótima ou pior que hoje, ou talvez um pouquinho melhor... eu estou bem. tirando a dor enlouquecedora no dedão do pé esquerdo.
não se preocupem com a minha dor, eu estou medicada, colocando gelo e não vou sair para dançar como de costume. eu vou deitar na minha cama e sonhar com o meu lindo namorado e vou descansar e ficar calma, tranqüila e feliz e amanhã, vou pentear os cabelos como de costume e esquecer que hoje foi um dia comum como todos os outros mesmo que eu não tenha penteado os cabelos e vou dar tchau para minha mãe e sair.
"...não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."
"... decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. "
"... pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta."
"...Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora."
"... eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca."
2 anos de brigas e abraços.
2 anos aprendendo a estar ao seu lado.
2 anos daquela nossa primeira vez. digo daquela nossa porque todas as nossas vezes são nossa primeira vez.
ah... como é bom ter aprendido a te amar e saber que o mesmo aconteceu com você.
parabéns, amor. por hoje e por todos os outros nossos próximos anos juntos, mesmo com altos e baixos e lapsos e interrupções.
o amor começa como sonho e depois vira monstro. um monstro que consome o pensamento. um monstro voraz que sai destruindo tudo o que vê pela frente. o amor mastiga todos os pedacinhos de mim. o amor devora! o amor chega na hora inesperada.
o amor é um degenerado, um pervertido que faz eu ver a vida em cor-de-rosa. o amor é um mendigo bêbado dormindo em páginas de jornal na calçada. o amor é friorento, calorento, sem sentido.
o amor é um pedinte, um transeunte, um passageiro. o amor é um cantor de churrascaria tentando emplacar um hit na novela da Record.
o amor é um escritor que não sabe gramática, uma equação matemática, uma coca-cola quente.
o amor é químico! a biologia explica o que ele é... bem melhor que a filosofia.
o amor é uma repetição.
o amor são os ciclos, as idades da vida.
o amor é o inferno astral vestido de anjo.
o amor acha ser simples, mas é complicado a beça. precisa de terapia!
o amor não deve ser explicado. amar, não é pecado!
o amor acha que é gente... e pode até ser no começo, mas quando o amor acaba... quando o amor acaba... é a gente que sente a dor.
If I read a book and it makes my whole body so cold no fire can even warm me, I know that is poetry
Emily Dickinson
9.10.09
"Se minha poesia tem algum objetivo é de retirar as pessoas das formas limitadas com que vêem e sentem"